|
CRÔNICAS
DEZEMBROS
Claudia Ribeiro do Valle
Odeio dezembros. Por que tudo tem que cair exatamente em dezembro: as compras, o cozinhaço, as comemorações obrigatórias? Amo os meus amigos o ano todo. Por que eles precisam ouvir isso sempre apenas e exatamente em dezembro? Às vezes até penso que seria melhor mudar de amigos. Ou de religião. Se eu fosse judia, o fim do ano seria aí por novembro. Não sei se resolveria o problema: os meus amigos judeus ficam quase tão estressados quanto eu em dezembro. É o tal do calendário civil. Poderoso, esse infeliz. Nem os judeus resistem a ele. Acho que os chineses também não, apesar de contarem o tempo de outra forma e dividirem os anos entre vários bichos. Mas negócios são negócios, e os chineses respeitam dezembros. Quem sabe se eu me convertesse ao islamismo e mudasse de país? Mas me parece um canhão para matar um passarinho, e acho que sou alérgica a burkas. Não tem jeito: a cada ano tenho que sobreviver a um dezembro.
Além de tudo, em dezembro ainda temos que ficar felizes. As pessoas, incluindo eu, todas sorridentes, se desejam Boas Festas. Boas, uma ova. Eu preferia que já fosse janeiro.
No trabalho há o dobro de tarefas para realizar na metade do tempo. Como se não bastasse, inventam uma enxurrada de happy hours e de amigos ocultos. Até a Associação dos cozinheiros amadores da Conchinchina faz reunião de fim de ano. E você precisa terminar não sei quantos relatórios enquanto cumpre a sua obrigação de ser feliz em dezembro.
Sem falar nos presentes que você tem de comprar. O décimo terceiro foi inventado para favorecer exclusivamente os comerciantes, as únicas pessoas que são felizes de verdade em dezembro. Comprar múltiplos presentes requer imaginação ilimitada. É uma sorte quando o futuro presenteado diz o que quer. Como aquele seu sobrinho de oito anos, que no ano passado pediu um Ultra-Super-Man. Quase esgotado nas lojas e caríssimo, mas você conseguiu. Este ano ele te pediu exatamente a mesma coisa. Você pergunta por quê e aprende que agora existe o Hiper-Mega-Ultra-Super-Man e que o garoto está traumatizado porque é o único da classe que ainda não ganhou esse troço. Esgotado e ainda mais caro. Mas se você não conseguir, vai ter que ajudar a pagar analista para ele daqui a alguns anos. Melhor enfrentar. E o presente da tia Hilda, que é uma chata e tem tudo? Em novembro, previdente, você comprou para ela um creme maravilhoso, último grito da moda. O fabricante alardeava a vantagem de ser um creme sem perfume, para não interferir no uso da fragrância predileta de cada um. Na semana do Natal o tal fabricante vem e anuncia, em letras garrafais, em todas as revistas que a sua tia Hilda lê, uma nova versão desse creme, enfatizando que é delicadamente perfumada. Pronto, você gastou uma fortuna e vai dar um produto já demodée. Isso deveria estar sujeito a indenização por perdas e danos. E todo mundo tem uma tia Hilda, não adianta negar.
Em dezembro, você ainda tem que ir mais vezes ao supermercado, e a empregada falta porque também é dezembro para ela. A ceia de Natal dá o maior trabalho, e a festa, com a família reunida, é sempre uma chatice. Mas você está obrigatoriamente feliz, não se esqueça disso. Agüentar aquele primo nojento, pelo menos é só uma vez por ano. Se a família for grande, ainda dá para levar. Mas se for pequena...
Estou convencida de que se eu liderasse uma campanha para acabar com os dezembros, teria toneladas de seguidores. Só que agora não tenho tempo pra isso. Afinal é dezembro. Boas Festas!
POESIA
SABEDORIA
Ana Teresa Coelho
Não há sofrimento
ou apego,
resistência
ou lamento,
apenas grande talento
na dança da folha seca
sob a batuta do vento.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
SONETO DO DESEJO
José Henrique Calazans
Te quero devassa, te quero santa,
te quero por inteiro em minha cama;
quero o teu riso meigo que me encanta
e o sussurro lascivo que me inflama.
Te quero agora, amor, te quero urgente,
desde o raiar do sol a seu poente;
nossos corpos, num só espaço unidos,
numa explosão de desejo e libido.
E se, nas tortas vias do destino
e tomado por algum desatino,
eu me fizer refém de tuas carícias,
cantarei meu amor em verso e prosa,
e colherei com ardor cada rosa
que brotar em teu jardim de delícias.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
QUESTÕES
Edna Galvão
Que tempo é esse
que acentua geografia
de meu corpo?
Que sulcos são esses
que correm pelo meu rosto?
Serão de águas cristalinas
ou turbulentas?
Talvez apenas
aventuras da vida,
embaixo de tormentas.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
CURRÍCULO
Eduardo Tornaghi
já soquei tijolo já virei concreto
já comi do bom e já pastei sem teto
já passei vazio já sonhei repleto
só me falta chorar pra ser completo
já banquei o bobo me pensando esperto
já fechei a porta e ainda restei aberto
já comprei a banca — já fui objeto
só me falta chorar pra ser completo
só plantei a dor achando ser correto
já tive razão mesmo sem estar certo
já me fiz sublime — já fui abjeto
já clamei por voz no pleno deserto
já me atrapalhei com tudo que é afeto
só me falta chorar pra ser completo
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
POEMA PARA NINGUÉM
Gaston Stefani
Desde o pôr-do-sol
até o fim do dia,
sem descansar,
eu te devoraria.
Com um vinho bordeaux
e a alma em alegria
saboreava o teu corpo
e te degustaria.
Com tuas pernas abertas
e os corpos em sintonia,
lamberia teu ventre
e te possuíria.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
INVESTIMENTO
Antonio Carlos Faria
não há prazo fixo
para investir neste amor,
desde que renda mais
que o próximo
ou o anterior.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
PERSPECTIVA
Ana Teresa Coelho
Depende de como se mira
tudo pode ser verdade
tudo pode ser mentira,
Se em mim a dor não sabida
é dita de tal forma e aflora,
como dizer que inexiste
aquela que dói agora?
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
ATITUDE
Denizis Trindade
me revelo
a cada palavra que falo
me revelo
a cada gesto que expresso
me revelo
a cada passo, a cada abraço
me revelo
rasgando o véu e as veias
me revelo
e me rebelo
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
INTERLÚDIO
Elisa Flores
Desenho no íntimo
partitura de pausas
no silêncio das palavras
que nunca esqueci
Confino meus sons
à alma em croquis
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
Mollie Ivy Burrel
não é miragem:
signos, sonhos, imagens...
quantas mensagens!
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
SAUDADES
Pedro Lage
Infinitamente só
incessantemente sem
incuravelmente seu
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
TRANSFORMAÇÃO
Heloisa Igreja
cai por terra
o saber
o dinheiro
o poder
somem nas entranhas da morte
os donos do mundo
os sábios e deuses
os que compram tudo
desaparecem
no infinito
no vácuo
no desconhecido
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
MARCA-PASSO
Valdelita Soriano
O tempo corre nas horas
que marcam os passos
da marcha.
As horas marcam o tempo
que corre na marcha
dos passos.
Os passos marcham
nas horas do tempo.
Marcham as marcas
no passo das horas
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
O MELHOR CONVITE
Gladis Lacerda
Pra que perguntar quem sou?
não interessa.
Se quiser vir comigo, eu vou
sem pressa.
Arrisque-se a surpresas,
viva um pouco de incertezas.
Tudo muito certinho é chato:
saiba o fim no fim do ato.
Às vezes vale a pena uma aventura,
olhar o mundo de cima,
correr riscos, fazer loucuras.
Vem viver assim, entra no clima.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
Personal Filme® Produções
Organizando suas imagens.
www.personalfilme.com
|
MICROCONTO
A difícil arte do microconto não nasceu agora.
Mas é artigo de luxo, típico da pós-modernidade.
Gênios da literatura de todos os tempos, tais como
Leonardo da Vinci, Franz Kafka e Eduardo Galeano, entre outros,
praticaram o exercício da síntese suprema neste tipo de narrativa.
Hoje o microconto é cultivado e cultuado pela elite da literatura braslileira.
Escritores como Dalton Trevisan, Marina Colasanti e
Helena Parente Cunha são alguns dos baluartes deste gênero.
Abrimos esta seção com uma obra-prima do contista Victor Giudice.
AS TRÊS MARIAS
Victor Giudice
Com a morte de Socorro, José respirou satisfeito:
enfim poderia casar-se com Prazeres. Com a Morte de Prazeres,
José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Graça.
Com a morte de José, Graça respirou satisfeita:
José tinha ficado um velho sem graça, sem prazeres, sem socorro.
DESAFOGO
Beatriz Barata
Afogada em sua solidão, sempre esperou encontrar alguém no elevador.
Foi assim naquele dia. Mas o elevador estava vazio. Não teve dúvida:
virou-se para o espelho e disse: "Bom dia".
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
ALÉM DO LIMITE
Beatriz Sodré
O bicho era pequeno e manso. Tornou-se grande e feroz.
Comia os pintos do galinheiro, perseguia os gatos do vizinho.
Quando a velha saiu de noite para jogar o lixo lá fora,
não se ouviu nenhum grito. Quem recolheu o lixo, no dia seguinte,
encontrou o saco estraçalhado. Quem olhou pro fundo do
quintal ainda pôde ver o bicho escondido, roendo um resto de chinelo velho.
Oficina de Literatura Cairo Trindade®
|